Wilson Martins e João Ubaldo Ribeiro
31 jan 2010Texto de Wilson Martins sobre a obra de João Ubaldo Ribeiro, que ele classificou como um dos grandes criadores da literatura brasileira no século XX. Confiram esta pequena amostra do trabalho do grande crítico:
por Wilson Martins
João Ubaldo Ribeiro, um caso de populismo literário
João Ubaldo Ribeiro (l940-) é, antes de mais nada, a persona da vida literária por ele mesmo criada e alimentada sob as espécies de uma personalidade pitoresca e irreverente, popularesca e populista ao mesmo tempo, rebelada contra as convenções sociais e as verdades aceitas, primitivo das letras e, como na fábula de La Fontaine, ‘camponês do Danúbio’, encontrado “sempre sem camisa’, diz um dos numerosos jornalistas que o entrevistaram, “de bermudas e chinelos, sem pretensão alguma de analisar os caminhos literários ou políticos do país”. O ‘escritor sem cara de escritor’, segundo a frase hoje consagrada, era uma ‘atração turística’ na ilha baiana de Itaparica, onde residia. Ao jornalista que lhe perguntou porque “costuma dizer que não tem cara de escritor”, respondeu com evidente satisfação:
É que realmente não tenho. O brasileiro habituou-se a
associar afigura do escritor com uma aparência formal, solene.
José de Alencar, com aquela barba, aquele ar de político do
Segundo Império, tinha cara de escritor. Eu não. Um escritor
digno desse nome, na visão da maioria das pessoas, não pode
aparecer sem camisa e de bermudas, pois assim fica assemelhado
em excesso ao comum dos mortais. Afinal, ele não é igual aos
outros, não tem os problemas que nós temos, não vai ao banheiro…”
(Playboy, abril 1991)
Mas, no mesmo diálogo e prevenindo ilações precipitadas, reivindicava a sua condição autêntica, aparentemente desautorizada por essas aparências:
Eu me considero um verdadeiro romancista. Isso sei que sou. Que
não desonro minha profissão sei também. Não digo pela qualidade,
mas pela seriedade. Eu, de fato, sou um escritor sério-sério,
honesto e dedicado. E, de certa maneira, um herói da profissão.
Meti as caras, resolvi pagar o preço: ou vai ou racha. Confiei em
mim mesmo e na minha fidelidade a este ofício. Ficaria indignado
se alguém dissesse que não sou escritor. Sou.
Não só um escritor profissional, no sentido forte da palavra, mas um escritor que se julga investido com um “senso de missão”:
Acredito em Deus e que nós temos algo afazer no mundo. (… )
Tenho interesses variegados sobre a vida em geral, o que leva
muitos a dizerem (sic) que meus livros são completamente
diferentes entre si. Entretanto, acho que as preocupações básicas
são as mesmas. ( .. ) Religiosas, humanistas … Sei lá, preocupações
com o destino da humanidade, com a injustiça, com a
discriminação, coisas assim. Tudo isso aparece nos meus livros,
até porque foram escritos pela mesma pessoa. Leia o restante deste artigo »











