Ricardo Silva, meu irmão
31 dez 2007O que é ter um irmão? De repente ele vem lá não sei de onde, porque sou do tempo da cegonha, mais um bebê no colo da dona Zefinha é eu com ciúme, claro, afinal, quando mesmo que ela me segurou daquele jeito? Minha barriga enorme já tinha sumido, junto com a foto que rasguei de vergonha daqueles vermes e lombrigas todas, mas o gosto do tijolo e de terra ainda estava entranhado quando Ricardo veio ao mundo, depois que a menina “não vingou, como se diz ainda lá pelas bandas do Sítio São José, município de Palmeira dos Índios, Alagoas, origem de tudo. Talvez por isso tenha ficado distante dele, assim como o pai da gente, mas não por querer, por doença mesmo essa tal de depressão que anos mais tarde quase me leva, a meu irmão e ao velho Zé Luis também, porque a dor só poderia ser aliviada por álcool, nossa alma doída imaginava. Vivi mais com minha tia, que é mãe, Antonia, Tonha, depois fui ao mundo nas asas desta profissão. Sabia dele, da sua vocação para o desenhos, das suas loucuras com a turma do underground paulistano, e de sua partida para acompanhando a família no retorno ao Nordeste, para fechar o ciclo do pau-de-arara tradicional. A distância geográfica aumentou, a das almas continuou a mesma, acho que esperando a hora, porque, acredito, normalmente guardamos em gavetas sentimentos nobres, sem saber porque. Tenho pena daqueles que morrem sem abrí-las. Eu fui abrindo as minhas depois dos internamentos, depois de ter começado a perder o medo de me olhar. Primeiro resolvi o nó com papai, muito ante dele partir. Mamãe era preservada, mas olhei ela direito de cima de um divã e ainda descubro sua dimensão. A sua entrega, a sua lição de amor me veio como sol no rosto no dia em que viajei três mil quilômetros e a vi ali no meio da sala, dentro do caixão. E meu irmão? Ah, esse menino que herdou um pouco do “trancamento” do pai, a quem cuidou durante 15anos como enfermeiro calado, dedicado, tirando urina pela sonda no horário certo, limpando o cocô da cama, virando o corpo magro do velho para as feridas não apodrecerem. No meio disso, vestia a farda e ia ser soldado da polícia militar na vida, pois foi caminho encontrado lá naquele agreste para ganhar um troco. Meu pai não conseguia agradecer. Meu irmão não conseguia chegar perto. Os dois se amavam demais. Eu estava lá quando o velho agradeceu-o. No leito do hospital, em março do ano passado, num momento de lucidez antes de ir embora dessa Terra, meu pai olhou para seu filho querido em pé ao seu lado, estico o longo braço direito e lhe bateu algumas vezes no peito, sem dizer nada. Não precisava. Choramos todos ali em volta daquela cama de enfermaria pública. Zé Luis dizia assim para sempre: “Aqui está um grande homem!” A morte do nosso pai nos fez abrir nossas principais gavetas. Sim, ele sempre agradeceu por eu ter lhe mostrado, mesmo sem falar, o mundo do cinema, da música, da fotografia, etc. Mas também nunca havíamos declarado e praticado essa coisa chamada amor, o amor que veio das mesmas fontes e nos fez muito parecidos, até na escassez de cabelos na cabeça. Nos falamos todos os dias. Muito, porque há essa maravilha chamada skype. Ele trabalha comigo, pesquisando o material do Recordar é Viver. E desde setembro, quando completou 47 anos, ao receber uma pequena máquina fotográfica digital, se revelou um excepcional artista. Eu acho até que ele está realizando aquilo que não consegui, pois fui para o caminho do jornalismo por conta da fotografia - e me descobri escrevendo. Ricardo Silva toma conta da casa dos meus pais, mora sozinho, tem filha, tem neta, tem talento de sobra. Desenha um álbum com uma longa história em quadrinhos encomendado pela Editora Conrad, continua Polícia Militar, parou de beber há 15 anos, é meu conselheiro, é um grande amor de quem me orgulho de ser irmão e de ter descoberto isso a tempo.



