
Dependente ou independente, submissa ou insubordinada, emancipada ou reprimida, esses e outros paradoxos são sempre considerados nas tentativas de interpretar a personalidade feminina, desde muito tempo. A evolução da humanidade mostra que, apesar das influências culturais, religiosas ou sociais, o comportamento feminino ainda é vítima da ambigüidade: submeter-se ou impor-se. Mas todas se deparam a dado momento com o sentimento de inadequação ou marginalização. Em Lilith e Eva – Imagens arquetípicas das mulheres na atualidade (136 p.p., R$28,90), da Summus Editorial, a psique feminina é analisada pela psicóloga e psicopedagoga Valéria Fabrizi Pires com base nos mitos que mais traduzem a condição da mulher. Lilith representa a mulher contestadora, que desenvolve uma vida fora dos moldes tradicionais, e Eva corresponde ao modelo que valoriza a maternidade e a postura conservadora dos costumes. Com base em questionários e entrevistas, a autora compara os dois modelos e apresenta uma inovadora forma de perceber qual deles predomina no atual papel da mulher na sociedade.
Valendo-se das figuras mitológicas de maior identificação com o feminino, Valéria inicia o livro com explanações de quatro estudiosos para contextualizar e explicar o que são os mitos e o que representam para a estrutura psicológica do indivíduo. As considerações dos mitólogos Joseph Campbell, Junito de Souza Brandão, Mircea Eliade e Roland Barthes contribuem para elucidar e interpretar a influência de Lilith e Eva nas personalidades avaliadas pela autora. “Os mitos ajudam o homem e a mulher a entender sua natureza, pois contêm todo o saber humano expresso de forma simbólica, tornando-se gradativamente conscientes conforme sua evolução. São vias de acesso, fantasias e crenças que muitas vezes estão fora da consciência, mas influenciam significativamente a vida dos indivíduos”, afirma.
Demoníaca e mística, Litith é renegada pela religião e pelo sistema patriarcal, porém é citada por muitas culturas antigas como a sumeriana, babilônica, assíria, cananéia, hebraica, árabe, persa e teutônica com versões variadas sobre sua participação na origem do mundo. Relacionada ao que é obscuro, escondido, proibido, o mito de Lilith está ligado a interpretações paralelas da criação da humanidade e, portanto, excluída dos registros oficiais dos religiosos. “Na sociedade patriarcal que perdura ao longo do tempo, Lilith é rejeitada, e seu caráter representa o aspecto oculto e instintivo do feminino, o que está reprimido no inconsciente da humanidade”, diz Valéria.
“Já Eva, muito mais divulgada, é reconhecida como modelo a ser seguido. De conduta repreensível, porém mais aceita”, relata Valéria. Desde a origem, como “pedaço” de Adão, recebe posição secundária, inferior, e dada à submissão, dependência, fraqueza, com o principal objetivo da maternidade. Como esposa fiel e obediente ao marido, a mulher inspirada pelo mito de Eva está limitada a servir à família e a ter sua satisfação pessoal relegada à do lar. E isso tem representado um dilema da modernidade, em que a mulher é incitada a assumir quantidade maior de tarefas.