Que maravilha viver

Posted by Angel Inoue on Agosto 6th, 2008 filed in comportamento

Teve a sorte de ter uma infância muito feliz. Nasceu numa cidade pequena na beira da praia, e costumava arrancar o mexilhão da pedra, abrir com uma faquinha e comer, ainda dentro da água. Só andava descalça, e à noite, para dormir, tinha que passar nos ombros uma mistura de polvilho com álcool, de tanto que ardia, de tanto sol.

Maçã, pêra, uva e galinha, só quando ficava doente. No quintal tinha um pé de pimenta e até hoje só gosta dela fresca – em conserva só em último caso. Peixe e camarão sempre com muito coentro e leite de coco, às vezes, uma gotinha de dendê. Ah, foi uma infância muito feliz, sim.

A vida foi acontecendo. Até hoje não sabe como nem por que, mas foi tendo acesso a coisas mais sofisticadas, das quais nunca tinha ouvido falar. O dia em que viu, pela primeira vez, uma alcachofra, foi uma emoção. E adorou – sempre gostou de novidades.

Foi longo o aprendizado, e passou por todas as fases. Usou roupas turquesa e rosa-shoking, se rasgou por uma camiseta bem original – e nessa, se prestou a fazer propaganda de todo o tipo de produto; usou argolonas nas orelhas, salto agulha, minissaia de couro, cinturão de tachas, o que fosse. Ia à Nova York com freqüência, e ficou na porta do Studio 54, no frio, à mercê das boas graças do porteiro que, em cima de um caixote, escolhia quem era digno de entrar naquela garagem escura, barulhenta, cheia de gente drogada; quando conseguia, que vitória.

Sofreu, ah, sofreu. Contou milhares de vezes o quanto dançou, o quanto se divertiu, que um dia viu de longe Andy Warhol e Bianca Jagger, e existe glória maior?

Foi aprendendo. As roupas foram ficando mais discretas, os paetês sumiram, as plumas caíram. Se hoje dá menos gargalhadas, em compensação, aprendeu a sorrir.Quando começou a gostar de Londres, sentiu o progresso. Em Paris, foi se afastando da Rive Droite, do Faubourg St. Honoré, da Avenue Montaigne, até de St. Germain. Começou a se perder no Marais, sozinha, procurando nas pequenas ruas medievais a fantasia, a liberdade, o prazer só seu, sem depender da aprovação ou do aplauso de ninguém, ah, de ninguém.

No início, fazia o tour dos grandes restaurantes, procurava conhecer os pratos mais extravagantes. E quando lhe diziam ”prove este vinho maravilhoso”, fazia o seu papel e dizia: “ah, que maravilha”. Não que estivesse mentindo. Afinal, tinha que corresponder a tantas gentilezas; mas de verdade mesmo, tinha vontade de dizer “olha, não peça um tão caro, eu sinceramente não consigo perceber essa maravilha, nem mereço”. Mas não ia ficar nada bem, entrou no jogo, agora tem que ir até o fim. Acostumada à batida de pitanga, maracujá, caipirinha, vamos ser sinceros nem que seja por uma vez na vida: fica difícil apreciar, com a pompa merecida, um Châteaux-Margaux.

Foi simplificando. Continua adorando um salmão, mas fica muda quando alguém elogia, dizendo “está ótimo, muito pouco gorduroso”. Quando ouve que o caviar está salgado demais prefere se abstrair; se tivesse o hábito de comer desde pequena talvez também achasse, mas como não é bem o caso, adora sempre.

Um bistrô do bairro, pão com mostarda, um copo de vinho da casa (nem precisa ser o Beaujolais nouveau), enquanto espera pela entrecôte com batata frita, para ela, já é luxo total. E quando lembra que não sabia nada, e vem a consciência do quanto aprendeu, fica quase orgulhosa; na vida daquela menina que passou a infância de pé no chão, quanta coisa aconteceu, ah, quanta coisa.

Só se sente muito aquém das pessoas que realmente sabem das coisas, quando chega num restaurante daqueles chiquérrimos, e propõem um risoto com trufas brancas recém-chegadas, raladas em cima, na hora de servir. Quando chega a grande hora, todos sentem o aroma celestial, fazem caras, miam, gemem, e ela, coitada, não consegue, simplesmente não consegue, sentir cheiro nem gosto de absolutamente nada.

Danuza Leão


Um comentário para “Que maravilha viver”

  1. chris Says:

    Adorei, principalmente qdo diz q hoje dá menos gargalhadas, mas em compensação, aprendeu a sorrir.

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