Os que contam
Posted by Angel Inoue on Julho 30th, 2008 filed in comportamentoEles sabem de tudo. Tudo o que está na moda, claro.
Da peça de teatro que está fazendo sucesso ao prato que Madonna pediu quando foi jantar no restaurante mais incrível de Los Angeles, passando pelo corte de cabelo de Demi Moore, se as unhas de Bianca Jagger estão curtas ou compridas, a cor do esmalte; de tudo, absolutamente tudo, eles sabem. Eles quem? ora, eles, os de sempre. Em qualquer lugar do mundo eles existem, e se reconhecem a quilômetros de distância.Compram todas as boas revistas e são capazes de, sem pestanejar, dizer quem estava no jantar de Nancy Kissinger em homenagem a Pavarotti, e em que colégio estuda o filho de Caroline Kennedy. Os mais aplicados sabem até o sobrenome do homem com quem ela se casou, haja cultura.
Se o assunto for camisas de homem, tem na ponta da língua o nome do camiseiro que faz as mais lindas; em Hong Kong, claro, aliás, o fornecedor de Gianni Agneli. Se se falar de férias, sabem o nome da ilha do Caribe onde Mick Jagger tem casa, e são capazes de descrever, com riqueza de detalhes, a decoração, a roupa dos empregados, a louça e o que é servido no café-da-manhã. Também sabem qual o clube da moda em NY, o musical que você não pode perder sob hipótese alguma, e mais: em que restaurante deve ir para, se tiver sorte, ver de longe Michael Douglas comendo um carpaccio. Desculpe, carpaccio saiu de moda; tomando um consome morno com ovo de tartaruga poché, um must.
Dá segurança viver num mundo onde não há risco de surpresas. Não importa a nacionalidade, eles se vestem igual, calçam igual, comem igual, pensam igual, vivem igual, se casam entre si. Vão aos mesmos lugares, nas mesmas cidades do mundo, e quando falam do restaurante em que jantaram na véspera, acrescentam a frase “só tinha gente conhecida”. Dá mesmo segurança viver nesse mundo que conhecem tão bem, mesmo que este mundo seja do tamanho de um ovo. De codorna.
Mas se um dia essas referências desaparecessem, como seria a vida? Sobreviveriam? Às vezes acontece de uma dessas pessoas sumir, e acham que ela enlouqueceu, mas é fácil de entender. Uma moça, dessas que sabem de tudo, foi um dia convidada para almoçar por um homem; ele tinha alguma coisa – o que, ela não sabia – e exatamente por isso, apesar de os sapatos deles não serem aqueles, nem o relógio, nem nada, aceitou o convite. No restaurante, ela escolheu a bebida certa para a hora, uma vodca tônica ou um sherry, sei lá. Para seu espanto, ele pediu um conhaque. Conhaque, antes do almoço.Foi a primeira vez que ela conheceu um homem livre. Se apaixonou perdidamente.
Danuza Leão
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